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A história da música eletrônica em Aracaju: da boate ao clube, a cena que se recusou a sumir

  • há 10 minutos
  • 8 min de leitura
Pista de dança lotada na festa de encerramento do Talhado Club, em Aracaju
Foto: P4 Produções (festa de encerramento do Talhado Club, agosto de 2022)

De um remix de rádio nos anos 1980 a um clube de frente pro mar na Orla de Atalaia, a música eletrônica de Aracaju atravessou quatro décadas caindo e levantando. Esta é a história de como a menor capital do Nordeste construiu, perdeu e reconstruiu a própria pista.

Toda cena tem um ponto de partida, e a de Aracaju começou longe da pista, no rádio. "Tudo começou com o interesse e curiosidade nas versões remix que se tornaram hits de rádio a partir de 1985, com o surgimento das primeiras remixes nacionais", relata o DJ Antônio Júnior, o Versianni. Autodidata, ele aprendeu a mixar sozinho, com os equipamentos emprestados de um amigo que tinha uma loja de discos de vinil. Numa cidade onde DJ ainda era figura rara, quase todo mundo tinha uma história parecida: aprendizado no tato e no ouvido, um toca-discos emprestado, às vezes uma figura mentora por perto, muitas vezes ninguém.

Foi nesse chão que a noite aracajuana ganhou os primeiros templos. Mixsom, Cataventos, Tio Zé, Over Night, Tequila Café e Rainbow eram algumas das boites (o estrangeirismo francês que se usava antes de "boate") que agitavam a capital nas últimas décadas do século XX. "Na época tínhamos vários locais, onde podíamos curtir a noite aracajuana de alta qualidade", lembra José Cláudio dos Santos, que atua como DJ há quase 30 anos. As casas eram o centro de gravidade, mas não eram tudo. Já havia movimentações mais underground, gente que organizava eventos por conta própria: o Centro e a Farolândia viravam palco improvisado, e há até relato de uma rave no terreno onde o Teatro Tobias Barreto ainda estava em obras.

Um público pequeno, mas de verdade

O que faltava em tamanho, aquela audiência compensava em entrega. A cultura clubber não estava disseminada em Aracaju como em São Paulo, e boa parte do público mal sabia nomear o que ouvia. "As pessoas não sabiam muito bem o que tava acontecendo. Tinha uma ou outra pessoa do público que conseguia identificar o que era techno, o que era house", conta Patrick Torquato, o Patricktor4, DJ e produtor. Ninguém ali estava contando gênero. Estava dançando.

E dançava com uma liberdade de que os próprios DJs sentiriam falta depois. "Era um público que dava mais prazer de tocar e interagir pois a diversão era muito mais intensa. Ninguém se preocupava se ia suar de dançar, perder o penteado ou se seria criticado pelos movimentos dos quadris", diz Versianni, que faz questão de sublinhar o quanto a recepção do público move o trabalho do disc jockey. Era uma cena de base sólida e sustentável, mesmo sem ser numerosa. O tipo de audiência que sustenta uma cultura no tempo, desde que ela tenha onde morar.

A virada do século e o esvaziamento

O problema é que, perto dos anos 2000, esse chão começou a sumir. Aracaju passou a receber cada vez mais grandes eventos de outros gêneros, o axé, o brega, o sertanejo, num movimento puxado por empresários que miravam o maior número possível de gente. A eletrônica foi perdendo força e espaço. Sem público de sobra, as boites perderam o sustento e, uma a uma, fecharam as portas.

A cena não morreu por falta de talento nem de público. Morreu por falta de casa.

Versianni resume com precisão o que se quebrou ali, e por que doeu tanto. "Sem um local (ou mais de um) onde se possa criar um público, com uma programação semanal, proporcionando uma experiência que vai desde o som da casa, ao repertório do DJ, até decoração, iluminação adequada e tudo mais que é parte da cultura DJ, não é possível transformar um cliente eventual, aleatório, em um aficionado pela música eletrônica." A frase vale como diagnóstico da década inteira que veio depois.

Antes de 2012: dois mundos paralelos

Nos anos que antecederam a virada, a eletrônica sergipana se reorganizou em duas correntes que corriam lado a lado. De um lado, o underground, com o psytrance e seus derivados no comando. O nome-símbolo desse mundo foi o Emotrixx, que teve em Álvaro Brasil, dono da Vooar, o seu principal articulador, responsável por trazer artistas importantes do circuito pra cidade. Do outro, a cena comercial e mainstream, que ia além dos eventos autorais e chegou a receber grandes marcas internacionais como Ministry of Sound, Pacha Ibiza e Café Del Mar.

Nessa segunda frente, um nome funcionou como ponte. Anny B foi uma das principais conexões entre os grandes centros, sobretudo São Paulo, e Aracaju, viabilizando projetos ao lado dos maiores produtores de eventos da cidade. Ao redor dela circulava uma geração de presença forte na pista, com nomes como Philipe Carneiro e Raul Meneleu. Eram dois circuitos de públicos e sonoridades distintas, mas que, juntos, mantiveram a chama acesa até o momento em que o mundo inteiro voltou os olhos pra música eletrônica.

2012: o mundo liga o holofote, e Aracaju responde

Esse momento tem data. Em 2012, o Tomorrowland se tornou um dos maiores eventos de música eletrônica do planeta e foi divulgado em massa no Brasil, e o país despontou de vez no cenário com uma leva de artistas que estourou dentro e fora de casa, de Alok a Gui Boratto, de Felguk a Vintage Culture. A onda global bateu na orla de Aracaju.

Com a eletrônica em alta, os projetos de sergipanos começaram a pipocar. Um dos primeiros foi o Reveillon Sun, evento anual focado em house music que ajudou a revelar a nova safra de artistas da terra. Quase junto veio o One Lounge Bistrô, casa que abrigou uma penca de DJs residentes e criou um núcleo raro, unindo a velha guarda à nova geração no mesmo balcão. Passaram por ali, entre residentes e convidados, DJ Marcos Mad, Malafaia, Philipe Carneiro, Lora Pau Ferro, D Connection, Anny B, Raul Meneleu e Versianni. Entre os eventos que marcaram esse recomeço estão o próprio Reveillon Sun e a passagem do Ministry of Sound pela cidade.

2013: nasce a P4

Em 2013, esse impulso ganhou uma estrutura pra chamar de sua. Nascia a P4 Produções, empresa dedicada a organizar eventos e festivais em Sergipe, com o Reveillon Sun na cartela ao lado de novos projetos como o La Pineal Festival e o Chicago Mystery Night. A P4 não parou na produção. Virou também gravadora de techno e house e portal de notícias sobre música eletrônica, além de assumir a tarefa de trazer e gerenciar artistas nacionais e internacionais para os próprios eventos. Pela primeira vez desde as boites, a cena tinha um agente pensando nela de forma contínua, e não festa a festa.

2016: o Talhado e a fábrica de artistas

O passo seguinte foi resolver o velho problema apontado por Versianni: a falta de uma casa fixa. Em 2016, a P4 assumiu o One Lounge e o rebatizou de Talhado Club, transformando um endereço que já era importante pra cena independente num espaço de incentivo e divulgação de artistas e eventos. As noites do Talhado varavam a madrugada e entravam pela manhã, ao som de aracajuanos e convidados de peso.

Foi ali que a cena virou uma verdadeira fábrica de nomes. No Talhado nasceram alguns dos projetos que definiriam a geração seguinte, como JJsoJJ, Navarro, Rokke, Evan Holfe (o Oiro), Gibby, Tropical e Bumpz. Na programação, eventos como La Pineal, Chicago, Sollares e Vooar. A casa fez o que Versianni dizia ser impossível sem um endereço: transformou cliente aleatório em aficionado e, mais do que isso, transformou público em artista.

2017: o boom e o underground que se reinventa

O timing foi perfeito. Em 2017, a música eletrônica vivia um boom nacional. O Brasil se firmou como um dos principais destinos de festivais como Tomorrowland, Ultra e Lollapalooza, e o gênero ficou mais acessível e popular na esteira das plataformas de streaming, das rádios e das redes sociais. A cena crescia puxada pelo consumo dentro dos eventos, pela variedade de estilos e pela mistura com a cultura brasileira, e nenhuma pista viva do país ficou de fora da onda.

Em Aracaju, o underground cresceu junto e se reinventou. Surgiu o coletivo Fugácida, formado por DJs, VJs e produtores, que trouxe pra cidade nomes de ponta da cena nacional como BADSISTA, Slim Soledad e Jup do Bairro, e realizou eventos inéditos que puxaram um público novo. O Fugácida se destacou pela diversidade e pela inclusão de minorias, gente LGBTI+, negra e trans, com a política de lista trans free. Foi um dos principais expoentes do que a cena de Aracaju passou a ser dali em diante: plural e política, e não só festeira.

2018 a 2022: consolidação, novos endereços e uma despedida de 24 horas

Os anos seguintes foram de amadurecimento e de multiplicação de espaços. 2018 foi de consolidação e novos eventos. Em 2019, o techno se popularizou de vez e surgiram alternativas como o Lucky, o The Clinic, o Talhado Drink Bar e o Innelegant. 2020 trouxe a Cobra Elétrica, mesmo com o mundo parando. A pandemia cobrou o seu preço e, em agosto de 2022, o Talhado Club fechou as portas pela última vez, com uma festa de 24 horas que virou despedida à altura de tudo o que a casa representou. Mas quem achou que a cena iria embora junto com o Talhado leu errado. A estrutura construída ao longo de uma década seguia viva, e só precisava de um novo endereço.

2023: a Fabric e o mar

Ele veio em fevereiro de 2023, e veio de frente pro mar. A P4 abriu a Fabric, clube na Orla de Atalaia que se firmou rápido como referência no Nordeste, recebendo artistas nacionais e internacionais já no primeiro ano. A casa nova herdou tudo o que as boites dos anos 1980 não tiveram tempo de construir e o Talhado provou ser possível: programação constante, som e luz de ponta, uma comunidade que se reconhece na pista. Da Mixsom à Fabric, o fio nunca se rompeu de vez.

E o retorno desse investimento aparece nos artistas. Da fornada do Talhado, Rokke e Navarro furaram a bolha local. Rokke, do house percussivo, juntou apoios de peso para faixas como "Diamonds", de Jamie Jones e Joseph Capriati a Michael Bibi e Mochakk, e ainda foi professor de produção do próprio Navarro. O aluno seguiu o mesmo trajeto: hoje residente da Fabric, com o seu minimal deeptech e tech house, Navarro já foi chancelado por Marco Carola, Solomun e The Martinez Brothers. Dois sergipanos no radar de alguns dos maiores nomes da eletrônica mundial, um formando o outro dentro de casa. É a prova de que a menor capital do Nordeste, aquela que quase perdeu a cena por falta de casa, hoje exporta assinatura.

2024 a 2026: a casa consolidada

Da inauguração pra cá, a Fabric deixou de ser aposta e virou rotina. O clube se firmou como a casa do house e do techno na cidade, com uma programação que virou calendário: as maratonas all night long de residentes como o JJsoJJ, as edições After Hours que empurram a festa madrugada adentro e um fluxo constante de convidados de fora. É exatamente o que Versianni descrevia como o único jeito de fidelizar um público, agora rodando semana após semana, de frente pro mar.

A cena sergipana é pequena, mas muito bem elaborada. A comunidade é extremamente unida, o que fortalece a cultura club. Clubs como a Fabric ajudam a manter essa união e a diversidade de gêneros, permitindo que a cena amadureça cada vez mais.
Rokke

O chão construído pra durar

Quatro décadas depois daquele primeiro remix de rádio, a resposta é a mesma que sempre foi, só que agora com endereço. A cena de Aracaju nunca dependeu de tamanho, e sim de teimosia: de gente que aprendeu a mixar no ouvido, organizou rave em terreno de obra, aguentou o esvaziamento dos anos 2000 e voltou a levantar casa toda vez que perdeu uma. O que as boites deixaram como lição, o Talhado provou e a Fabric herdou: sem um lugar pra chamar de seu, não se cria público, e sem público não se sustenta cultura.

Hoje, a menor capital do Nordeste faz o caminho de volta. Deixou de apenas importar o som que o mundo dançava e passou a exportar os próprios nomes, com sergipanos dividindo linha com alguns dos maiores da eletrônica global. A pista que quase sumiu virou ponto de partida, e a próxima geração já dança sobre um chão que, dessa vez, foi construído pra durar.

Fontes: depoimentos de Antônio "Versianni" Júnior, José Cláudio dos Santos e Patrick "Patricktor4" Torquato; P4 Produções; Mapa Cultural (mapas.cultura.gov.br); iMusician; Bananas Music; Clube do Músico.

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Fundada no Nordeste Brasileiro em 2012, a P4 começou atuando como uma agitadora cultural, evidenciando expoentes locais através da produção de eventos.  Com o tempo, o conceito da marca foi se tornando cada vez mais abrangente e alcançando ainda mais espaços. Com um equipe de destaque, a P4 se tornou também uma gravadora brasileira especializada em gravações de techno, house music, eventos, reserva de artistas e gerenciamento. Além de ter se tornado um portal de notícias independente que vive e respira dance music.

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